A Ludicidade no ensino de Língua Portuguesa.

Poliana Brito Sena[1]

Nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o màximo se sabor possível... (Roland Barthes) Resumo: O presente artigo busca depreender o processo do ensino de língua portuguesa sob as diferentes matizes manifestadas pelo lúdico, com ênfase no desenvolvimento da criatividade e participação cultural dentro do seguimento educacional.

Palavras-chave: educação, língua portuguesa, manifestação lúdica.

1-Introdução

Durante muito tempo o ato de ler e escrever eram percebidos como meramente um instrumento que através da aprendizagem de decodificação de texto, as palavras saltariam do texto para a mente do leitor. A esse ato é possível identificar a necessidade de busca, troca e interação entre os membros desse processo educativo.
Nesse sentido, procuro demonstrar a importância do lúdico dentro da educação como uma metodologia que possibilita mais vida, mais prazer, e significado ao ensino, tendo em vista que esta é uma arma poderosa para estimular a vida social, a criatividade, enfim, o desenvolvimento de competências e habilidades das crianças.

Por meio das várias manifestações do lúdico (jogo, brincadeira, festa, brinquedo), a criança reproduz muitas situações vividas em seu cotidiano que são reelaboradas pela imaginação e pelo faz-de-conta construindo novas possibilidades de interpretação do real, segundo as suas necessidades, afeições e desejos.

Segundo Vygotsky (1984) é brincando, jogando, que a criança revela seu estado cognitivo, visual, auditivo, tátil, motor, seu modo de aprender e entrar em uma relação cognitiva com o mundo de eventos, pessoas, coisas e símbolos. Diante disso, convém que saibamos respeitar o tempo da criança ser criança, sua maneira de ser e estar no mundo, de conhecê-lo, de vivê-lo.

Para conceituação teórica utilizarei renomados autores que discutem incansavelmente a relevância do lúdico na educação: Vygostsky (1984), Huizinga (1980), Kishimoto (2001) entre outros.

2- O lúdico na educação.

Muitos desafios são encontrados na educação, principalmente para quem trabalha com ela e se dedica para fazer o melhor. Vários estudos já foram realizados nesse campo, mas este não deixa de ser um tema sempre atual e em constante movimento em busca de melhorias. Falar em educação é falar em ser humano, em seu meio, seu gosto, suas relações vivenciadas, por isso é que ela continua a ser discutida, por que o homem é um ser complexo que está em constante mudança.

A infância é a idade das brincadeiras. E nesse sentido o lúdico destaca-se como uma das maneiras mais eficazes de envolver o aluno nas atividades escolares, pois a brincadeira é algo inerente na criança, e de certa forma, é um meio de refletir e descobrir o mundo que a cerca. Assim bem coloca Kishimoto (2001):

Admite-se que o brinquedo represente certas realidades.
Uma representação é algo presente no lugar de algo.
Representar é corresponder a alguma coisa e permitir sua
evocação, mesmo em sua ausência. O brinquedo coloca a
criança na presença de reproduções: tudo o que existe no
cotidiano, a natureza e as construções humanas. Pode – se
dizer que um dos objetivos do brinquedo é dar à criança um
substituto dos objetos reais, para que possa manipulá-los
.[2]

A escola deve compreender essa postura que o lúdico mantém diante do processo de ensino-aprendizagem, pois diante das novas propostas de formação de cidadãos críticos, questionadores, enfim, pessoas ativas na sociedade, este seria um suporte extremamente acessível, além de estimulante e prazeroso. Mas existe um grande receio dos educadores em adotar esse elemento lúdico em suas aulas, justamente pela “idéia equivocada de que os brinquedos, o jogo, trazem em si elementos perturbadores da ordem, levando a atitudes de indisciplina”. [3]

Procuramos sempre aplicar o lúdico
de forma aproveitável para os alunos,
 pois quando o mesmo é aplicado de forma aleatória
costuma virar brincadeira. [4]

O professor, autoridade a quem cabe difundir o saber da cultura letrada precisa aderir ao conhecimento construído por meio da ludicidade que implica numa escola mais autônoma e democrática, pois o jogo, no ponto de vista do desenvolvimento da criança traz vantagens sociais, cognitivas e afetivas.

Enfim, a educação é um fato que por conta da necessidade de comunicar-se, de interagir-se com outras pessoas, de torna-se um indivíduo socialmente civilizado sempre esteve presente na vida humana. Com base nisso, podemos considerar que a principal substância do processo educacional está centrado no ensino da língua materna que tem como objeto constituinte a linguagem.

3- Jogo, brincadeira e ensino de Língua Portuguesa.

O ensino de língua portuguesa contempla as seguintes faces segundo Antunes[5] (2003): leitura, escrita, oralidade e gramática e nesse ponto de vista é possível perceber a tentativa de aquisição de uma linguagem padrão que em meio a sua complexidade entra em questão ”o que ensinar” e “como ensinar”.
E como proposta para esse plano, Marcelino[6] (1990) ressalta que o seguimento educacional é um espaço privilegiado para o “jogo do saber” que precisa recuperar o caráter lúdico e ser levado a serio como suporte para o ensino e alternativa para a denúncia e compreensão da realidade.

O jogo e a brincadeira são experiências prazerosas da natureza da criança, que devem também ser prazerosamente vivenciadas no processo de aprendizagem. A escola ao valorizar as atividades lúdicas, ajuda a criança a formar um bom conceito de mundo em que a afetividade é acolhida, a sociabilidade vivenciada e a criatividade estimulada.

A intensidade do jogo e seu poder de fascinação 
não podem ser explicados por analise biológicas.
E contudo, é nessa intensidade, nessa fascinação,
 nessa capacidade de excitar que reside a própria e
ssência e característica primordial do jogo.[7]

O professor de língua portuguesa precisa ter consciência da importância de sua formação permanente, de estar sempre inovando seu fazer pedagógico e de ter senso crítico e atitude investigativa para mediar o ensino da língua. É preciso também ter consciência que aplicar uma determinada brincadeira aleatoriamente, sem ter claros seus objetivos e sua ação em relação ao desenvolvimento e aprendizagem acarreta uma grande deficiência ao ensino.

4- Considerações finais

No transcorrer deste artigo procurei refletir sobre a importância das atividades lúdicas e suas várias possibilidades de manifestação na educação em específico no trabalho com a língua portuguesa. As manifestações lúdicas na nossa sociedade têm grande ligação com os interesses e ideologias de classes dominantes. Portanto, cabe escola e a nós, educadores, instituir o ato de brincar e jogar de forma mais alegre e atrativa levando em consideração os aspectos culturais, sociais, afetivos. Ao se brincar, não se aprendem somente conteúdos escolares; aprende-se algo sobre a vida, sobre a realidade presente no cotidiano das pessoas.

É buscando novas maneiras de ensinar através do lúdico que podemos realmente conseguir chegar mais próximo das necessidades da criança, pois uma atitude lúdica é, antes de tudo, uma maneira de ser, de estar, de pensar, de encarar a escola como um lugar sério e comprometido com o aprendizado.

5- Outras referências

MARCELLINO, Nelson Carvalho. Pedagogia da animação. SãoPaulo: Papirus, 1990.
ALMEIDA, Paulo Nunes de. Educação lúdica: técnicas e jogos pedagógicos. São Paulo: Loyola, 1995.
SANTOS, Santa Marli Pires dos. Brinquedo e infância: um guia para pais e educadores. Rio de Janeiro: Vozes, 1999.

[1] Acadêmica do quarto semestre do curso de Letras Vernáculas da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, campus x.
 [2] KISHIMOTO, Tizuko Morchida. Jogo, brinquedo,brincadeira e a educação. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2001. P.18.
[3] MORAIS, Regis de. (org.) Sala de aula: que espaço é esse? 3. ed. Campinas: Papirus, 1988. p. 61.
[4] Resultado de uma entrevista realizada com professores de língua portuguesa. Esse depoimento remete ao questionamento feito acerca da prática realizada com o lúdico em sala de aula. Maio 2008.
[5] ANTUNES, Irandé Costa. Aula de português: encontro & interação. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.
[6] MORAIS, od. Cit.. p. 59.
[7] HUIZINGA, Johan. Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura. São Paulo: Perspectiva, 1980.p.5

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